LILIANA MICHELSEN

Canção artística alemã e francesa

Foto: Caio Amon

A Riqueza da Simplicidade

 

A canção artística nasce do desejo por comunicação. O mesmo desejo que nos move com frequência nas nossas vidas cotidianas ao dividirmos, com alguém, histórias, sensações, anseios, sentimentos, dúvidas. Enfim, vivências.

 

Na canção, o processo em geral ocorre da seguinte forma: do mesmo caldeirão de motivos compartilhados por todos nós, o poeta, inspirado pela mesma vontade/necessidade de comunicação, organiza sua vivência em palavras, valendo-se de seu talento para lidar com elas. Assim ele produz o poema: uma comunicação pronta para quem quiser acessá-la através da leitura.

 

Um dos leitores que acessou este poema foi um compositor, que, além de acessá-lo, identificou-se de tal modo a sentir-se inspirado para recomunicar a mensagem, agora filtrada pela sua própria sensibilidade e comunicada a partir de seus talentos para lidar com os sons. Assim nasce a canção: uma arte em duo, poeta e compositor, transmitida por meio da escrita musical, a partitura.

 

Ainda sim, é preciso executá-la musicalmente para que ela seja comunicada. Entra em cena um outro duo: um cantor e um instrumento (e aqui vamos enfatizar o piano, para o qual existe uma infinidade de canções compostas).

 

Então temos a parceria formada pelo duo de canto e piano,dedicado a decodificar todas as mensagens contidas na partitura. Precisam lidar com o conteúdo do poema, com a maneira de declamá-lo melodicamente escolhida pelo compositor, pela atmosfera interna sugerida pelas escolhas sonoras do compositor, com timmings que delimitem mais simples e honestamente a combinação da mensagem de ambos, com a sincronicidade de intensões entre os parceiros. Dentro de cada um destes itens existem reflexões enriquecedoras tanto para a esfera pessoal, quanto para a esfera musical (abrangendo assim a grande área „interpretação“ e a maneira de realizá-la, a famosa técnica). Tudo isso será comunicado através dos 3 talentos do duo: as ferramentas artísticas e vocais do cantor, as ferramentas artísticas e instrumentísticas do pianista e as ferramentas de cooperação entre ambos.

 

No momento em que nós, intérpretes executantes, pensamos na canção desta forma pessoal, nos apropriamos dela. Ou mais claramente dizendo, nos tornamos gradativamente mais cientes de que estamos transmitindo uma mensagem produzida pela genialidade de outros artistas, mas cujo conteúdo pertence ao nosso caldeirão comum de vivências. É aqui que fica clara a diferença entre a reprodução de uma canção e apropriação de uma canção.

 

A apropriação significa conectar-se internamente aos mais diferentes aspectos. Exige muito, mas também oferece muito: exige buscar o honesto e portanto o simples. Oferece muito: um dos aspectos mais preciosos à humanidade desde os mais antigos registros de pensamentos, que é a conexão através da comunicação, o compartilhamento.

 

Usei muitas palavras para descrever uma postura, uma abordagem, para sugerir o caminho da apropriação aos artistas locais e aos estudantes de música e chamar a atenção para as possibilidades infindáveis desta abordagem artística. Ofereço esse curso porque a mim também esse caminho foi sugerido durante o período em que estudei e trabalhei na Alemanha, através do contato com tantos e tantos profissionais envolvidos nesta busca. Quem me introduziu ao assunto e me encantou com as intermináveis possibilidades foi Marcelo Amaral, e ensinamentos valiosos (além de práticos) vou sempre carregar comigo das aulas com Helmut Deutsch, do período de assistência a Iride Martinez e Johannes Mannov (alunos transmissores da herança de Mirela Freni, de Hans Hotter, de Aldo Baldin, entre outros), assim como incríveis „a-ha!s“ advindos da experiência compartilhada por Konrad Jarnot, por Robert Holl, citando alguns. Sem falar nas experiementações fantásticas a que pude ter acesso em função de ter sido docente da Hochschule für Musik Nürnberg por tantos anos: as várias semanas de trabalho intensivo com estudantes rigorosamente selecionados ao redor do mundo na academia de verão IMA (Internationale Meistersinger Akademie) em Neumarkt liderada por Edith Wiens (que contou ano após ano com a visita de artistas como Margo Garret, Tobias Truniger, Birgit Fassbaender, Rudolf Piernai, entre outros).

 

Neste artigo escrito para a divulgação na Agenda Lírica, descrevi as motivações da abordagem que ofereço. No curso, partiremos (por motivos de limitação de tempo) para questões objetivas: existem ferramentas específicas para trilhar esse caminho, e as quero compartilhar com quem se dispuser, munida da minha experiência nesta área e do meu ouvido, que estará ao dispor dos executantes, para identificar maneiras de aperfeiçoamento. E porque uma última parte deste grande processo de comunicação está na recepção da mensagem pelo ouvinte, o curso também recebe ouvintes em geral, que representam o nosso público, para aqueles que estejam interessados em entrar em contato com esta forma de arte, e revisitar o nosso caldeirão de vivências comuns.

 

A Casa da Música hospeda o curso e nele são bem-vindos cantores sozinhos, pianistas sozinhos, sendo que os duos dividem o valor da inscrição. Sao dois dias de trabalho (24 e 25 de novembro, com duração de 4 horas diárias), e existe a opção de escolha por um dos dias. Espero vocês com as canções que os interessam, para formar um ambiente de cooperação, compartilhamento e crescimento.

AGENDA LÍRICA
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