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HABEMUS ÓPERA: A CAVALLERIA DA CORS


Foto: Bebel Osorio


Formada por cantores da cena lírica gaúcha, a recém-criada Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (CORS) apresentou ao público gaúcho ontem, 05/05, o primeiro título oficial da temporada: Cavalleria Rusticana (1890), obra-prima do compositor italiano Pietro Mascagni (1863-1945).


A primeira ópera de Mascagni é também considerada a primeira ópera verista – escola naturalista musical desenvolvida no final do século XIX e início do século XX – e, talvez não por coincidência, é também a primeira ópera apresentada pela companhia – estamos diante de várias “estreias”, cada uma em seu tempo. Vale aqui salientar que Mascagni era um obscuro compositor e um professor de canto que lutava com dificuldades para se sustentar na pequena cidade de Cerignola até a estreia de Cavalleria, que foi um grande sucesso já em sua primeira apresentação. Em 1888, Mascagni soube que o editor musical Eduardo Sonzogno, fundador da famosa Casa Musicale Sonzogno, estava oferecendo um prêmio para quem apresentasse a melhor ópera de um único ato. Em 1889, o compositor levou sua partitura à apreciação do júri, sendo agraciado com o primeiro prêmio.


A trama de Cavalleria Rusticana se constrói a partir do amor de Santuzza pelo amante Turiddu, que, após chegar de viagem, retorna aos braços de sua antiga noiva, Lola, então já casada com Alfio. Louca de ciúmes, Santuzza conta a Alfio sobre a relação adúltera de Lola e Turiddu, gerando conflitos e desdobramentos de grande densidade dramática.


Embora a história de ciúmes, traição e morte se passe originalmente em uma aldeia do Sul da Itália, a montagem pensada pelo diretor cênico e tenor Flávio Leite explora o caráter atemporal da trama. “Estamos diante de um drama presente nas relações humanas de qualquer época ou lugar”, esclarece. "Por isso" – diz Flávio – "a encenação será visualmente limpa, com elementos cênicos pontuais que assumirão papeis diferentes ao longo da narrativa. Queremos evidenciar, sobretudo, as relações humanas que se estabelecem entre os personagens. O verismo traz essa característica do texto muito mais próximo da fala, com discurso mais reto e similar ao teatro de prosa”, explica o diretor.


A brutalidade da trama que apresenta personagens rústicos, violentos e, às vezes mesquinhos, foi explorada com sensível sutileza, trazida à tona pelos cantores em caracterizações muito críveis: o tom cálido, térreo e dramático da soprano Rosimari e seu vigor interpretativo mostraram uma mulher desesperada, carente e, por fim, vingativa; a frieza e o descaso de Turiddu ficaram evidentes na interpretação do excelente tenor Lazlo Bonilla; o baixo-barítono Daniel Germano e sua voz generosa apresentaram ao público um brutal Alfio; já a soprano Elisa Machado nos trouxe uma Lola cheia de matizes e contrastes, misturando uma voz doce com uma linguagem gestual e corporal explorando picardia, num tom satírico e de malandragem; encerrando o elenco, temos a Mamma Lucia da contralto Angela Diel, com sua voz igualmente impressionante e profunda.


A montagem também teve a participação do coro Provox, de Porto Alegre, com preparação da soprano Elisa Machado. Além de dar voz e vida aos aldeões que apoiam o elenco principal, o coro foi responsável por posicionar no palco o principal aparato cênico: uma grande cruz criada por Rodrigo Shalako que é iluminada, pouco a pouco, por velas colocadas em toda sua extensão durante um dos momentos mais intensos e comoventes da ópera, o “Inneggiamo, il Signor non è morto”.


A apresentação contou ainda com a direção musical e acompanhamento ao piano da soprano Eiko Senda, que, com grande sensibilidade, soube explorar todos os aspectos dramáticos da partitura de Mascagni.


Por fim, na Cavalleria de Leite, não há domingo de Páscoa ensolarado – pelo contrário –, tudo é sombrio como a traição, a dor, a vingança e os ânimos das personagens, o que foi perfeitamente representado pela iluminação de Veridiana Mendes.


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Por Carlos Rodriguez

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