VOCÊ SABE O QUE É CORREPETIÇÃO? 

Foto: Caio Amon

Você sabe, como musicista, o que se ganha ao trabalhar com um correpetidor profissional? 

 

Se, ao ler estas perguntas, você pensou no bom e abnegado pianista acompanhador, talvez a leitura deste texto possa ampliar sua visão sobre este assunto e, melhor ainda, sobre as suas próprias possibilidades de desenvolvimento.

 

A atividade de correpetição iniciou com o pianista que auxiliava o cantor no processo de aprendizagem de um novo papel de ópera, repetindo simplesmente ao piano seus intervalos e ritmos, naqueles idos tempos em que cantores com percepção musical “deficitária” eram tolerados. No decorrer das décadas, a concorrência cada vez mais acirrada entre os cantores e entre os instrumentistas fez mais raro este déficit, elevando cada vez mais os padrões do aceitável, do bom e do ótimo. Neste contexto floresceu a correpetição, atraindo um sem número de profissionais experientes e capacitados, que agregaram conhecimento, exigência e impulso artístico aos músicos que os procuravam. Por fim, a infraestrutura de ensino nos conservatórios e universidades na Europa e nos EUA, assim como suas casas de ópera, assimilaram estes profissionais, numa aposta inequívoca na qualidade. 

 

O profissional da correpetição tem em sua bagagem a linguagem instrumental específica do músico com quem trabalha, junto à sua linguagem de formação individual como pianista e como músico. É um pianista familiarizado com desafios corporais dos cantores, a produção do som da flauta, do violino, ou de qual seja o instrumento em que se tenha aprofundado. Vivenciou e colaborou pessoalmente com processos de formação e desenvolvimento em cada uma das áreas de interesse e acumulou informações sobre os diferentes desafios do fazer musical. Munido de sua experiência, conhecimento da peça trabalhada, do estilo, da linguagem específica do instrumento e, sobretudo, de sua audição (pode parecer óbvio, mas o tipo de atenção auditiva do correpetidor é em si um pilar importantíssimo), oferece informações, sugestões e propõe processos perceptivos internos e externos da mensagem sonora. O objetivo? Tornar mais nítido o caminho para a intimidade e o entendimento da peça. Ou, em outras palavras, potencializar as possibilidades de apropriação pelo intérprete do texto musical transmitido pelo compositor através da partitura, em busca de uma execução mais profunda e qualificada. 

O desafio do intérprete é considerável, para dizer o mínimo. Recebemos uma mensagem do compositor através de uma partitura. Daí em diante, precisa-se encontrar maneiras de realizar a performance em todos os seus níveis, sejam técnicos ou emocionais. No plano ideal, desenvolve-se um alto grau de intimidade com todos os aspectos que constituem a mensagem, oferecendo-a integralmente ao público. Neste processo, a dedicação do musicista é intensa e vai muito além da capacidade de saber o quê ou quando tocar/cantar. Uma execução integral, nosso eterno objetivo, precisa considerar e amalgamar algo dos grandes tópicos da capacidade artística: compreensão da atmosfera que o compositor organizou em sons e comunicou através da partitura, coordenação das ferramentas corporais adequadas, disponibilidade emocional para criar empatia com a atmosfera almejada e concentração motora e psicológica necessárias para transmitir a mensagem no palco, perante um público. Cada um destes tópicos demanda uma gama de compreensões – e aqui entra o correpetidor. 

Todo performer detém algum grau de apropriação e compreensão dessas questões, seja ele profissional ou não. Entretanto, para que a mensagem do compositor seja bem transmitida, todos esses aspectos devem andar tão juntos quanto possível. Os resultados dessas capacidades, quando bem articuladas, não tem limites no fazer do artista concentrado. O correpetidor é então, antes de tudo, um mobilizador desses elementos todos, trabalhando a par e passo com o musicista profissional ou em colaboração estreita com os professores de canto ou de instrumento, no caso do profissional em formação. 

A grande maioria das instituições de ensino no Brasil não dispõe de infraestrutura em que haja espaço ou orçamento para dispor de correpetidor, contentando-se com o acompanhamento (aquele à moda antiga). As produções de ópera lutam para dispor de todos os profissionais necessários a cada montagem, de modo a que o ensemble entregue o impacto musical e dramático que se espera e deseja, às vezes prescindindo, em meio à batalha dos custos, da preparação cuidadosa que um correpetidor profissional oferece. A luta pelo aumento dos recursos financeiros é árdua e, felizmente, há profissionais com as competências e o empenho necessários arrancando, à unha, importantes sucessos em nossas terras e levando adiante concertos, produções, projetos e até mesmo orquestras. Em tempos de tantos desafios apresentados à classe artística para manter-se ativa, com público cativo e apoiada moral e financeiramente pela sociedade, a oferta de música erudita deve, mais do que nunca, contar com toda a disponibilidade e capacidade de seus intérpretes. A hora é agora! 

 

Como artista e correpetidora, estou feliz por retornar à minha terra neste momento de construção e consolidação e acredito que as ferramentas sobre as quais conversamos tem, sim, um papel importantíssimo a desempenhar. E a razão é singela: as pessoas que nos assistem (e, em última análise, que nos endossam e nos mantém) esperam por esses momentos de compartilhamento de nossas experiências internas, e aqui me refiro às experiências humanas, comuns a compositores, intérpretes e público. Para atendê-las, neste grande processo empático e de comunhão que é a música, precisamos, como musicistas, dispor de todas as ferramentas disponíveis para transmitir a mensagem e assim nos conectarmos, objetivo maior de toda arte. 

 

LILIANA MICHELSEN

Mestre em piano pela UFRGS e mestre em correpetição vocal pela Hochschule für Musik Nürnberg

Lecionou nas instituições de ensino alemãs Augsburg Universität e Hochschule für Musik Nürnberg

Colaborou com as classes de canto de Iride Martinez, Prof. Johannes Mannov, Prof. Elisabeth Kovac, Prof. Siegfried Jerusalem, Prof. Jan Hammar, entre outros, e com classes de flauta de Prof. Marcos Fregnani e Prof. Anne Catherine Heinzmann.

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