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"OPERITA VIOLONCELLO", OBRA DE ARTHUR BARBOSA, DEVE SURPREENDER PELO INEDITISMO DA PROPOSTA

Ópera de câmara que deveria estrear no final de abril teve sua temporada suspensa e aguarda novas datas para o segundo semestre

Foto: Lúcia Moreira


Porto Alegre, 04 de abril de 2020



Aguardada como uma das grandes estreias da temporada erudita, em Porto Alegre, a Operita Violoncello é mais uma das montagens que teve apresentações adiadas devido à crise provocada pelo Covid-19. A temporada estava prevista para ocorrer nos dias 28 e 29 de abril, no Theatro São Pedro.  A ópera de câmara em um ato composta e regida pelo maestro Arthur Barbosa, com libreto de Álvaro Santi, tem como tema central o violoncelo. Dirigida por Jacqueline Pinzon, a montagem leva um renomado elenco à cena, protagonizado pela mezzo-soprano Angela Diel, pelo baixo Ricardo Barpp e pelo bailarino e corógrafo Raul Voges, além de um conjunto de oito violoncelistas, um percussionista e duas bailarinas/atrizes, Pâmela Manica e Janaína Nocchi.


Esta não é a primeira incursão de Arthur Barbosa neste gênero. Como violinista e apaixonado por ópera, já tocou em diversas orquestras, participando de montagens no Brasil e no Exterior, como em Santiago do Chile, país onde trabalhou ao longo de 1991, junto à Orquestra Filarmônica de Santiago.  Teve grande atuação junto à (extinta) Orquestra Filarmônica da PUC-RS, sob a regência do maestro Frederico Gerling Jr., e, mais recentemente, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Sua primeira composição operística foi (Antônio) Chimango, que estreou em 2014, com Ospa. A obra de Ramiro Barcelos, com libreto de Rafael Godinho, alcançou grande sucesso. "Até hoje as pessoas ainda me perguntam por que não volta a cartaz" (risos).


Arthur Barbosa conta que já fazia um ano e meio que estava tentando realizar a Operita Violoncello. "Eu comecei a compô-la havia mais ou menos nove ou dez meses. A ideia era homenagear este instrumento que eu tanto admiro, o violoncelo. Em que pese o fato de eu tocar violino, gosto muito do violoncelo. Eu já tinha conversado com algumas pessoas cellistas, que conheço, pra fazer uma obra que representasse esse instrumento, então veio a ideia e junto essa história de transformar o violoncelo quase num ser humano, no sentido de que é mais um personagem na obra", explica. Para a concretização do projeto, o maestro contou com a colaboração de diversos artistas, que gentilmente se colocaram à disposição. Na trama, existem três personagens centrais: Maria, uma grande violoncelista; Juan, por quem Maria se apaixona, e o próprio violoncelo de Maria, formando um triângulo amoroso entre um instrumento e duas pessoas. O libreto foi escrito por Álvaro Santi. Poeta e compositor premiado, ele possui diversos poemas publicados. (seu último livro foi Nenhum amor igual ao meu, lançado em 2019). "Eu já tinha o enredo da ópera, mas foi Álvaro que desenvolveu essa história de amor, envolvendo esses três personagens", relata. "Foi um trabalho tranquilo. Ele fez o poema e eu transformei-o em música", diz. Ele conta que uma boa parte da música já havia composto, mas não tinha os diálogos. "O Álvaro ficou livre pra fazer a parte dele. Trocamos impressões o tempo inteiro, até chegarmos a um texto final, a partir do qual comecei a compor as canções que faltavam. Foi todo um processo de composição em dupla onde eu transformava os diálogos criados em música", narra.


Arthur Barbosa considera que, para ele, colocar música nos versos é muito mais difícil do que o inverso. "Quando a gente vai colocar as notas nas letras é um processo mais longo e trabalhoso, no sentido de que eu tenho que colocar nota por nota em cada sílaba, e em cima disso ainda vem toda a orquestração; o trabalho é um pouco mais longo", alega.


Segundo Barbosa, a concepção de Operita Violoncello seguiu a lógica de todo processo criativo. "A gente pena um pouco, é sempre doloroso, mas quando a obra está criada e vem o parto, temos aquela realização pessoal de ter gerado um filho", opina. Ele narra que, inicialmente, estudou o repertório dos violoncelos, aspecto que considera inédito na obra, pelo fato de ser composta somente para um conjunto deste instrumento. "Eu não tenho conhecimento, no mundo, de uma ópera que faça uso de um conjunto de violoncelos e um percussionista, somente, mas conjuntos de violoncelos são muito usados no mundo inteiro em outras obras instrumentais e até com canto, como é o caso das Bacchianas Nº 5 do nosso Villa Lobos", reforça.


"Isto se dá porque o cello é um instrumento que tem um alcance maior do que os outros da sua família (cordas). Vai do grave, muito grave, até o agudo, muito agudo, então, com isso ele se transforma num instrumento que dá para se fazer um ensemble com as vozes graves, com as médias e as agudas", justifica. Segundo ele, o som da orquestra de violoncelos é muito peculiar, ainda que sejam escassas as obras para esta formação. "Por isso, o ímpeto de criar nossa própria obra. Será inédito, especialmente para o público".  


Ele ressalta, ainda, a presença de um percussionista, o que irá garantir um toque de latinidade à formação operística.  "Eu me inspirei na música da América-Latina, pelo fato de a trama se passar em um país qualquer deste continente. O público pode esperar uma musicalidade envolvente, com muito tango e ritmos do Sul do Brasil, como a milonga", comenta.


"A gente pena um pouco, é sempre doloroso, mas quando a obra está criada e vem o parto, temos aquela realização pessoal de ter gerado um filho"

Ópera Inédita


Operitta Violoncello seria inédita em sua proposta? Arthur Barbosa ressalta que não tem conhecimento, no mundo, de uma ópera feita com orquestra de cellos. "E se houver, serão poucas e desconhecidas?, reforça. "Eu arrisco dizer que esta proposta é inédita no Brasil. Apesar de não ter realizado uma pesquisa a fundo, o fato é que não encontrei nenhum indício da existência de uma obra similar no mundo", enfatiza.


Para a formação desta orquestra singular, Barbosa recorreu a excelentes cellistas que atuam no Estado. São eles: Diego Schuck Biasibetti, Martina Ströher, Milene Aliverti, Tácio Vieira, Rodrigo Alquati, Isadora Gheres, Rafael Honório, Estela Deunísio. Completam a formação, o percussionista Jorge Matte e o pianista Fernando Rauber, responsável pela preparação dos cantores.


Os ensaios cênicos para a Operitta Violoncello, envolvendo músicos, cantores e bailarinos, já começaram, sob a coordenação da diretora Jacqueline Pinzon. Arthur Barbosa já concluiu a parte da orquestração e na sequência irá distribuir as partes que caberão a cada músico. Seguindo o planejamento inicial, os ensaios com o regente, reunindo o elenco e os músicos, deveriam iniciar em abril.


Interpretando os papeis principais, estão Ângela Diel, Ricardo Barpp e Raul Voges, artistas com os quais Arthur Barbosa já teve oportunidade de trabalhar inúmeras vezes, em diversos concertos com a Ospa. "Nada mais natural que a gente conheça as pessoas e vá trabalhando com elas. A Ângela foi quem primeiro pensei para o papel. Depois precisávamos encontrar um cantor que encarnasse o Juan e a escolha de Ricardo Barpp foi acertada", opina. "Para interpretar o violoncelo, convidamos Raul Voges, que é um excelente bailarino e com quem eu já havia trabalho em Chimango". É dele, também, a coreografia do espetáculo.


Em uma época em que toda a cadeia produtiva das artes sofre com a falta de incentivos, corte de patrocínios, em meio a uma recessão econômica, conviver com a retração da atividade cultural se tornou uma realidade dura de ser enfrentada. Com a extinção de diversas orquestras no Estado, a montagem de uma ópera se torna uma empreitada das mais desafiadoras. "Eu penso que a montagem de Operita Violoncello é como um respiro, neste momento", avalia o maestro. "A ópera, seja brasileira ou estrangeira, precisa ser valorizada, porque é um gênero completo, que envolve todas as artes: temos a as artes plásticas com os cenários, as artes musicais com os músicos, as artes cênicas com a representação, e a dança, ou seja, coexiste uma gama de linguagens, que tornam a ópera um dos gêneros artísticos mais completos que conheço".


"Porto Alegre precisa de óperas e a gente carece, também, de apoio. Então, quanto mais iniciativas surjam, mais temos que louvá-las, agradecer e pedir para que se mantenham e que as pessoas apoiem", argumenta. "É muito importante que nesse momento, em que a produção de óperas está em baixa, eu possa contribuir com uma obra de minha autoria. É um prazer fantástico", finaliza.

Operita Violoncello

Opera Studio Porto Alegre


Ficha Técnica:

Direção Artística, Composição e Regência: Arthur Barbosa

Libreto: Álvaro Santi

Encenação: Jacqueline Pinzon

Coreógrafo, Narrador e Bailarino: Raul Voges

Solistas: Angela Diel - Mezzo Soprano

                     Ricardo Barpp - Baixo

Bailarinas: Pâmela Manica e Janaína Nocchi

Orquestra de Violoncelos:

Diego Schuck Biasibetti | Martina Ströher | Milene Aliverti | Tácio Vieira | Rodrigo Alquati | Carla Pacheco |

Rafael Honorio | Estela Deunisio

Percussionista: Jorge Matte

Pianista Preparador dos Cantores: Fernando Rauber

Figurinos: Pâmela Manica

Cenário: Raul Voges

Iluminação: Maurício Moura

Fotografia: Cláudio Etges

Vídeos: Maurício Casiraghi

Assessoria de Imprensa e Divulgação: Sílvia Abreu By Consultoria Integrada De Marketing

Produção Executiva: Adriane Azevedo


Produção e Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu (MTB 8679-4)

Fones: 51 | 9-8632.0145 (Oi) | 28/03/2020

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