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A VOZ DO EXÍLIO


Foto: Manfred Antranias Zimmer para Pixabay


Porto Alegre, 25 de março de 2020



Coronavírus, ano 2020: a raça humana encontra-se isolada, sob risco de extermínio. Soa alarmista? Siga minha reflexão... Apesar da ameaça de morte parecer se limitar a um grupo de risco composto por pessoas de imunidade baixa - sejam elas idosos, aqueles que têm doenças crônicas, etc. -, o efeito cascata que a contaminação em massa dos mesmos desencadearia, ao que tudo indica, poderia causar um colapso nos sistemas de saúde da grande maioria dos países. Se para alguns ainda assim não parecer suficientemente indecente e desumano o descaso com esses irmãos vulneráveis, seria ao menos inteligente trazer à luz o óbvio: se os hospitais estiverem lotados por casos de contaminação pelo coronavírus, faltará lugar e pessoal para atendimento de outras emergências e todos seremos vítimas dos efeitos - sejam eles diretos ou colaterais - do, até o momento, incurável vírus. Desde o pensamento egoísta e de descaso alimentado no confinamento às grosseiras batalhas por produtos diante das prateleiras e das caixas registradoras dos supermercados, a situação trouxe consigo manifestações do que há de pior na humanidade, e nunca antes nos sentimos tão sós...

Coronavírus, ano 2020: a raça humana encontra-se isolada, sob risco de extermínio

Mas eis que surge, em meio à pandemia e ao caos que assolam o planeta, um fenômeno mundial surpreendendo a todos: vozes que se erguem invadindo os lares dos confinados, numa generosa e fraterna tentativa de trazer alento aos corações dos privados de liberdade e de seu habitual direito de ir e vir.


Cantores em performances ao vivo em suas janelas ou pela internet, além daqueles que seguem seus estudos musicais e de repertório em suas casas, despertaram em mim uma série de questões, entre elas: Como seria um mundo sem música? Como seria pegar o carro e dirigir até o trabalho totalmente em silêncio? Como seria enfrentar um engarrafamento ouvindo apenas as buzinadas à nossa volta? E o que dizer da ansiedade da espera na sala que antecede uma importante consulta médica? E como seriam nossas lembranças românticas? São tantas as situações diárias de estresse e mesmo de alegria e de solidão nas quais a música nos acalma, conforta, emociona e acompanha.


Então, definitivamente um mundo sem música seria triste, seria tenso, e, acima de tudo, seria menos bonito...


Mas o que faz o profissional da música - e principalmente o cantor - entregar a ouvintes aleatórios e inusitados o produto de sua maior paixão e outrora seu sustento, sem a mínima perspectiva de ganho financeiro?


Apenas uma resposta me parece plausível: assim como o pássaro na gaiola exilado dos céus, o cantor, em seu exílio longe dos palcos, precisa cantar - esta é a sua natureza.


Por Carlos Rodriguez - barítono e diretor de conteúdo da Agenda Lírica.

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